ZzzZZzzzzZZZ….

Rooooonc…roooonc…

Hã?! Ah…Olá novamente, jovem amigo…Que bom que você não é muito ocupado nessa vida e pode vir até o bar conversar com esse velho acabado  aqui! Hoje sonhei com um velho amigo…daqueles de infância. Falando nele, ocorreu uma história inesquecível nesse bar que o envolve…

Valmir era um grande artista, fazia os tapetes mais magnificos da cidade! Conquistava a atenção de todos com aqueles lindos tecidos bordados, pois suas cores faziam cada olhar querer desvendar o que ali parecia estar codificado.

Fazia tapetes apenas por hobbie, para trazer um pouco de arte ao beco do Guabiru espocado. Mas sua arte não deixou que ele a guardasse em um status tão baixo como esse. Ainda me lembro no dia em que estávamos tomando umas aqui no bar, quando entrou pela porta um homem barbudo e com a cara de ferro de passar. Possuía várias tatuagens no seu corpo quase albino, e um cabelo ruivo bastante comprido, que cobria-lhe as costas largas.

Ele era Jonas Simão, um cara conhecido pela sua ambição imoral. Não importava qual tipo de serviço, qual a área, o que ele identificava como um empreendimento

lucrativo, tratava imediatamente de agarrar com suas mãos imundas. O homenzarrão sentou-se ao lado de Valmir, que se encontrava bem ali…perto das mesas de sinuca. Só sei que tiveram uma conversa, por favor não me pergunte o que eles conversaram, porque sinceramente eu não sei.

No dia seguinte não vi meu amigo, nem no dia depois deste…não vi Valmir uma semana inteira após aquela noite. Uma bela tarde, ele apareceu no Tunatumba para falar comigo. Parecia bastante animado e feliz, mas isso me perturbava de alguma forma…notava que aquele que estava falando comigo não era mais o mesmo que conhecia a tantos anos, algo nele, por menor que fosse, havia mudado.

Jonas contratou o nosso querido tapeceiro amador, para que fizesse tapetes para vender em todo o país, e até em outros países sul-americanos. Era uma boa proposta, o salário era muito tentador, então… “Por que não aceitar? Essa pode ser minha chance de me realizar financeiramente fazendo o que adoro!”, como ele mesmo disse. Não ficou muito tempo, disse que tinha que trabalhar em novos tapetes. Sua frequência no bar foi caindo…caindo tanto que havia semanas que ele não aparecia de jeito algum nesse estabelecimento. Passaram-se cinco meses desde que o talentoso artista começou a trabalhar para o ruivo toradão. Numa sexta chuvosa, um dia em que o movimento estava bastante fraco no Tunatumba, eu e Saul estávamos jogando uma partida de sinuca, quando o nosso artista entrou no bar. Estava pálido, olheiras negras tentavam cobrir seus olhos, sua respiração estava intensa, parecia estar muito cansado…

Confessou que Jonas era um chefe terrível. Disse que no começo estava gostando bastante, mas depois do segundo mês, o cabeludo exigiu que a produção dobrasse..e que inovasse cada semana na confecção dos tapetes, pois alegava estar enjoado daqueles mesmos tapetes de sempre.

O pior de tudo: Jonas o havia feito assinar, na noite do primeiro encontro deles, um certificado de compromisso. Este certificado foi apresentado no final da conversa, quando o esperto ruivo tatuado já tinha em sua frente um homem completamente bebado e que, com certeza, não leria uma só palavra daquele papel.

Valmir continuou sua hitória. No terceiro mês estava completamente louco.

Não sabia mais como inovar em seus tapetes! Já haviam saído tapetes de todo tipo de material, até alguns feitos com materiais recicláveis. As vendas estavam caindo, e a fúria de Jonas não parava de subir. O tempo de trabalho tornou-se quase integral, fazendo o tapeceiro ficar com os dedos sangrando de tanto confeccionar seus produtos. No Quarto mês, Valmir não era mais humano…suas ações eram como as de um robô programado para uma determinada missão. Confessou que nesse mês, saía no Guabiru Espocado em plena madrugada, atrás de certos materiais para seus tapetes.

Pobres gatos e cachorrinhos…Bem, pelo menos nunca mais ouvi uivos e miados interrompendo o meu sono.

Essa sua medida o garantiu um mês sem reclamações intensas por parte de Jonas, pois as vendas foram muito boas. Imagine se as madames da alta sociedade descobrissem de onde veio aqueles tapetes delas hein, Saul?! huhuhuhu…..

Mas a falsa tranquilidade na vida de Valmir durou apenas até o início do quinto mês. O chefão exigia novos tapetes, modelos diferentes! Alegava que se não mudasse o material que usava as quedas de venda seriam certas. E ali estava o tapeceiro, que atualmente sofria por causa de seu tão querido hobbie, acabando de me contar toda a trajetória que havia percorrido ao longo de cinco meses de trabalho.

Quando a chuva passou, o meu querido amigo, com o qual dividi muitos momentos da minha vida, deu-me um forte abraço e se despediu. Me lembro da expressão estampada na sua face….me assustei com ele pela primeira vez. Quando já estava próximo da porta, voltou-se para mim e disse com uma voz seca: “já chega…”.

No dia seguinte, logo quando cheguei no bar, encontrei um pacote em cima da mesa de sinuca. Era um presente de Valmir para mim.

Logo na frente tinha uma pequena mensagem escrita:

“Querido e velho amigo Lino, estou me despedindo deste beco (e talvez deste mundo) hoje.

Tentei fazer do meu hobbie favorito uma forma de me dar bem na vida…mas não foi bem

o que aconteceu, não foi?

Nunca confie em alguém que lhe ofereça propostas aparentemente perfeitas, vira copos…

Nunca se comprometa assinando termos idiotas, mesmo estando completamente bebado…

Eu cheguei no meu limite, não aguentava mais este trabalho…

Quebrei o contrato, e acho que Jonas nunca mais vai querer que eu volte a trabalhar para ele.

Está agora nas suas mãos, meu último tapete.

Adeus, amigo…

Que o Tunatumba continue por muitos e muitos anos!

Ass: Valmir”

Me aproximei do balcão, estava chocado com o que Valmir escreveu na frente do pacote. A letra dele estava muito bonita…e a tonalidade da tinta era estranha..era bastante vermelha. Depois que senti o cheiro comprovei que se tratava de sangue. Tratei logo de abrir o pacote, para ver como era a obra final do talentoso tapeceiro do nosso beco do Guabiru Espocado. Tirei do pacote um tapete de cor alva, decorado por várias tatuagens, e com belos pelos avermelhados.

Depois de muito tempo, fiquei sabendo que Valmir tinha se matado. Jogou-se dentro de um triturador de carne em uma fábrica. Fiquei muito triste…não é fácil ver amigos partirem, quanto mais sendo partidos.

É…acho que por hoje basta. Deixe-me voltar a dormir, criança…

O que?! Onde foi parar o tapete? Ficou ótimo no banheiro da casa de Saul…

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